Entenda impactos da retomada do Talibã ao poder; Professor de Relações Internacionais explica

Ao Bom Dia Feira, na manhã desta sexta-feira (20), o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia, Áureo Toledo, destacou que, para entender esta retomada, é preciso considerar as variáveis que fizeram da intervenção dos EUA

Foto: Divulgação

Com a fuga do presidente afegão e a retomada do Talibã, grupo fundamentalista marcado por violações aos direitos humanos, ao poder, o mundo se viu mergulhado numa ferida histórica ainda aberta no Afeganistão. Ao longo da semana, imagens de pavor e restrições de liberdade da população afegã mostraram o assombro deste fantasma do passado.

Ao Bom Dia Feira, na manhã desta sexta-feira (20), o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia, Áureo Toledo, destacou que, para entender esta retomada, é preciso considerar as variáveis que fizeram da intervenção dos EUA um fracasso. 

‘Essa foi uma intervenção cujo norte foi uma militarização do processo, no sentido de que o grande objetivo dos EUA foi sempre o combate ao terrorismo, o que é um problema seríssimo porque quando se faz uma intervenção deste tamanho, sem pensar que será preciso reconstruir o país, vai causar uma série de problemas. Se você quer entrar no país e acabar com milícias, você tem que, pelo menos, oferecer uma alternativa para essa milícia, no sentido de desmobilizar, desarmar, mas tudo caminhando paralelamente ao terceiro pé deste tripé que é a reintegração’, afirma. 

Áureo pontua que esta estratégia fracassou, já que não foi priorizada, o que culminou em um cansaço e fez com que o Talibã se afastou, mesmo seguindo com o controle de alguns territórios afegãos durante este período. 

‘Eles tinham acesso a arma, tinham um orçamento que, em março de 2020, era de 1.6 bilhão de dólares, a partir de um dinheiro que eles conseguem por meios ilícitos, como tráfico de drogas, contrabando, extorsão, e meios lícitos que é, por exemplo, a tributação. Se o Talibã chegou aonde chegou, chegou primeiro porque a intervenção dos EUA não foi guiada, o estado afegão é fraco e não conseguia se sustentar, então precisava de uma ajuda externa, além do Talibã sempre ter dinheiro’, diz. 

A partir de agora, o professor relata que há grande incerteza sobre as ações do grupo e destaca a expectativa existente sobre a moderação do Talibã, diante da necessidade de recursos. 

‘O período que eles governaram no passado foi um período de terror, particularmente para mulheres e minorias etnorreligiosos, a parcela da população que mais sofreram. Agora eles falaram que as mulheres vão continuar trabalhando, estudando, mas deixaram claro que elas são mulçumanas e tem que se comportar como tal. As ações do passado não têm sustentação no Alcarão, o que eles fizeram foi uma interpretação deturpada das fontes do islã, nada garante que essas interpretações não voltem a ocorrer. Boa parte das reservas internacionais do Afeganistão estão nos EUA e as reservas emergenciais estão bloqueadas, ou seja, eles terão pouca reserva para segurar, sendo preciso buscar em outras fontes, em outros parceiros’, explica. 

Assista a entrevista na íntegra:


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