A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA NOS DIAS DE HOJE

Foto: Divulgação

Existe um livrinho, de poucas páginas, mas de uma grandeza nas suas ideias e propostas, mas que ainda é pouco lido. Falo de “Discurso da Servidão Voluntária” de Étienne de La Boétie. Francês e amigo de outro gigante francês, Montaigne. Escrito quando ele tinha apenas 18 anos de idade, lá pelos anos de 1576. A obra descreve que somos tiranos de nós mesmos, pois, segundo ele é o próprio povo que se escraviza e se suicida, uma vez que, pode fazer a escolha de ser submisso ou ser livre. Segundo ele, o povo abre mão da liberdade e se submete a tirania dos governantes, por fraqueza moral, hábito e ignorância. E o tirano se mantêm porque os próprios súditos se mantém servis.

 

Estes tipos de submissão geram favorecimentos e obediência entre os homens em geral, dando assim a possibilidade de o tirano controlá-los. E esta servidão se dá de forma voluntária.

 

Quando analisamos estes escritos e trazemos para nossa realidade social e política, vemos que a percepção política de Le Boétie esta atualíssima. O que se vê nos diversos extratores da sociedade brasileira é o apoio incondicional as bravatas, a grossura, a falta de talento e incomensurável incapacidade de administrar do presidente Bolsonaro. Por certo, falo daqueles 30%, que independente destas qualidades apontadas, defendem com unhas, dentes e pouca massa encefálica o governo federal instalado no Planalto.

 

Não enxergam por exemplo o negacionismo descarado dos perigos que a pandemia do Covid 19 causou ao mundo e que atingiu em cheio o Brasil. Propalou a torto e a direito o uso de medicamento que o mundo inteiro sabe que não produz nenhum efeito contra o vírus. Ainda mandou o exército a fabricar milhões de comprimidos às custas do erário para sustentar a sua ideia amalucada sem comprovação científica do uso da hidroxicloroquina. Apenas de esclarecimento, o laboratório de pesquisa forense Atlantic Council em associação com outros institutos de pesquisa, aponta que o Brasil é o único país do mundo que ainda se discute o uso desta substância. Simplesmente porque está comprovado cientificamente que não tem poderes de evitar o vírus da covid 19, além de trazer graves problemas colaterais. Mas se mantém em nosso país porque o presidente da república propala o seu uso.

 

O desmando na condução do dia a dia da administração pública é visível. Não se trata de se posicionar se é a favor ou contra o governo Bolsonaro. Se é de esquerda ou direita. Não se trata disto. Mas ter a lucidez de que o presidente da república representa o que há de mais atrasado e extremista da política. Não há um só dia que não se apresente equívocos na condução da governança presidencial. Sua equipe de trabalho, no caso os ministros, são de uma incompetência atroz. Exemplo não faltam. Pululam diariamente.

 

Alheio aos problemas graves que o Brasil vive, o presidente Bolsonaro se preocupa apenas em governar para a sua claque extremista que aplaude tudo que fala e faz, no caso os servis que fala Le Boétie. No episódio da morte do João Alberto ocorrido na última semana, por exemplo, não se viu uma só palavra de repúdio ao acontecido ou esboçar uma repulsa ao crime. Pelo contrário. Saiu-se com o velho argumento da teoria da conspiração de que se está importando lutas ao qual o Brasil não tem histórico.

 

Teorias de conspiração é muito comum em pessoas com nível de informação abaixo de zero. Serve de muleta para esconder a incompetência ou fechar os olhos para os problemas que se apresentam. No discurso no G20 no último fim de semana, o que se viu foi um alentado de bobagens e a tentativa de defender uma posição escondendo as mazelas que o mundo inteiro já sabe. Para a súcia das redes sociais foi um discurso de estadista. Sinto dizer. Ninguém deu bola para o que ele disse. Já caiu no descrédito internacional. Nem Trump presta atenção na sua pessoa.

 

No caso do assassinato de João Alberto apelou para a discurseira de que no Brasil existe a “democracia racial” e que, repito, forças estrangeiras estariam incentivando o conflito racial no Brasil. É uma bobagem retórica tão absurda que nem merece comentário. Mas este discurso, como já disse por diversas vezes, é um método. A desconstrução dos valores para impor a visão distorcida de que tudo aquilo que vai de encontro as ideologias de sua corrente política, é ação de comunistas de amplitude global. Só idiota acredita nisto.

 

Os que aplaudem o governo federal, são a representação fiel daquilo que foi dito a mais de quinhentos anos por um jovem de dezoito anos. Para preservar a tirania, que nos dias de hoje a palavra pode ser substituída por governante, domina distribuindo pequenos agrados, no caso a defesa de uma ideologia extremista e fundamentalista e dá visibilidade a esta corrente de pensamento, estes, por sua vez, gratos aceitam a submissão, no caso do Brasil, aplaudindo as inventivas do presidente da república, como se fosse um mantra.

 

Se os amigos observarem, verão que toda a vez que tem oportunidade de falar em público, o presidente Bolsonaro fala em liberdade, patriotismo e nacionalismo. Este tripé de palavras, são ditas justamente para endossar a visão políticas extremista que carrega. Pois a manutenção de sua governança, é necessário que enfrente inimigos, no caso imaginários. E a subversão destes três valores, geralmente vinda de agentes estrangeiros, se constitui o seu sustentáculo de permanência no poder. Seus admiradores o vêem como um protetor que garante a preservação de sua ideologia.

Compartilhe

Deixe seu comentário