O DEBATE ERRADO

Foto: Divulgação

Já virou lugar comum dizer que hoje vivemos tempos estranhos. No Brasil em especial, esta estranheza dos dias atuais se dá de forma constante e quase diária. Não há uma semana que não surjam fatos que em terras distantes não seriam sequer levadas a sério. Mas como vivemos não só tempos estranhos, o obscurantismo e a empulhação intelectual impera, só resta nos entrincheirar e combater o atraso que teima sobreviver.

 

Na última segunda-feira, na porta do palácio da Alvorada, o presidente da república, naquelas conversas com sua claque que se aboletam num toldo improvisado, disse em alto e bom som que não haverá obrigatoriedade na vacinação contra o vírus da Covid. Mas ao que parece o presidente Bolsonaro deve ter memória curta. Esquece ele que em 6 de fevereiro deste ano ele sancionou a lei nº 13.979, aprovada pelo Congresso Nacional, que nas situações do coronavírus a sua vacina é obrigatória. Não cabe, portanto, a ele dizer que não será obrigatório a vacinação no caso de haver agente que combata o surto pandêmico.

 

Para avivar a memória do presidente da república e os obscurantistas que pregam a não obrigatoriedade da vacina, leiam o artigo 3º, inciso III, alínea d da referida lei. Verão que a vacinação é sim obrigatória. E ponto final. Não cabe ao presidente da república se mostrar contrário aquilo que prevê a lei, que por sua vez está em consonância com a Constituição Federal nos seus artigos 196 e 197. Propor em contrário, pode incorrer em crime previsto no Código Penal.

 

A discussão relinchante sobre a defesa dos direitos individuais, ao qual se argumenta que ninguém pode obrigar as pessoas a tomarem vacina ou qualquer outra medida profilática de combate ao surto pandêmico, é tão patética que fica difícil acreditar que tem gente que defenda esta ideia. Não se trata da defesa de um direito de direitos individuais, mas sim a preservação de um marco civilizatório e de construção de uma sociedade civilizada. Se alguém se recusa a ser vacinada, seja por qualquer motivo, que vá morar numa ilha deserta no meio do oceano Pacífico. Se o indivíduo se recusa a encarar as medidas sanitárias, e tomar vacina é uma delas, ele está contribuindo para a disseminação do vírus. Se a doença não fosse altamente transmissível e o sujeito desejasse morrer sozinho, o direito de não tomar a vacina, somente o atingiria. Mas, na medida em que a transmissão se propaga de forma rápida e muita das vezes de forma mortal, não cabe alegar proteção aos direitos individuais. Quem defende este ponto de vista, ainda vive no século XIX. Situações deste quilate não cabe discutir se existe um outro lado do problema. São valores inquestionáveis que fazem a civilização seguir em frente, e defender a não obrigatoriedade de uma vacina que combate um surto pandêmico, somente demonstra a pequenez de uma gente que beira o barbarismo.

 

Assim para pôr fim ao ciclo de iniquidades que insistem encontrar berço esplêndido em nosso país, felizmente a fala do presidente da república dizendo que não vai permitir a obrigação das pessoas se vacinarem, cai no vazio, porque a legislação sancionada por ele diz justamente o contrário e pelas regras brasileiras a vontade presidencial não prevalece.

 

Como não bastasse a fala presidencial, no fim da tarde da última segunda feira, houve uma solenidade pomposa no Planalto para anunciar a grande conquista da ciência brasileira: o uso de um vermífugo como remédio para tratar na fase inicial os contaminados pela Covid-19. Usaram um gráfico fajuta sem nenhuma indicação, que “pesquisa científica” havia comprovado que as substâncias nitazoxanida reduz a carga viral do covid-19 em pacientes. O anúncio feito pelo ministro da ciência e tecnologia Marcos “pé-de-feijão” Pontes, sim aquele astronauta que custou 60 milhões de reais aos cofres públicos numa viagem espacial promovida pela NASA e a única coisa relevante que fez nas estrelas foi plantar uma sementinha de feijão dada por uma aluna de uma escola primária, para saber como se comportava a leguminosa, não apresentou nenhum dado científico ou como foi realizada a pesquisa.

 

Segundo declarou o ministro no dia de ontem, a ausência das informações científicas se deu porque primeiro precisa ser publicada numa revista científica internacional, e enquanto não for publicada não se pode divulgar nada a respeito. Como diria o verdureiro de minha rua: “Tô comendo este H”. Estranho que os maiores centros científicos do mundo não têm nenhuma pesquisa neste sentido, e somente o Brasil apareceu com esta novidade. Alguns apressadinhos diriam que estou duvidando da capacidade da ciência brasileira. Muito pelo contrário, temos excepcionais cientistas, merecedores inclusive de prêmio Nobel, o que desconfio são aqueles que se dizem cientista, que não sabe distinguir uma pipeta de uma centrífuga e de repente aparece com um remédio milagroso.

 

Espero sinceramente que o milagroso remédio atinja a finalidade que foi dito na pomposa cerimônia do Planalto. Mas o histórico destas ideias e das pessoas que estão a frente, me faz ter uma certa dose de ceticismo. Afinal quem defende cloroquina como remédio que cura o covid-19, quando o mundo inteiro nem fala de sua atuação profilática e não há uma só pesquisa científica que a comprove, e que o homólogo do presidente Bolsonaro, Donald Trump assim que foi acometido do vírus nem cogitou tomar a substância, fico imaginando que estranho não são os tempos, mas certas pessoas.

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