FEIRA QUE VIVI - XVII

Foto: Divulgação

Nesta última croniqueta da série, deixo aqui dois breves comentários por um dever de gratidão e de justiça.

O primeiro, registrar o idealismo de pessoas que inspiradas em anseios de liberdade política, e com sacrifício de seu bem-estar contribuíram para o esforço realizado na Bahia, em prol da restauração da democracia no país. E quem pagou com a própria vida, como Jota. Ao menos, este reconhecimento e gratidão não deixarão anônimo o emedebista morto por pistoleiro, a mando de chefe político, pois a historiografia somente registrou as vítimas da guerrilha, nos quarteis ou as ocorridas em locais clandestinos.

Em Feira, foram importantes na luta pela democracia a firmeza de idealistas como Zeraimundo, Dega, Osvaldo Ventura, Coelinho, Gerson Gomes, Antoniel Queiroz, Humberto Mascarenhas, Sinezio Félix, Gouveia  e Rêmulo Oliveira, dentre outros; pelo sertão e pelo litoral, os companheiros de jornadas (dia e noite) por estradas intransitáveis naquela época, como Edson Barbosa, Denivaldo Henrique, Pellegrini e Tiano, que, sem receio de enfrentamentos, ajudaram a fincar as raízes do MDB, dando apoio permanente e consolidando os anseios e a bandeira da democracia em todos os quadrantes da Bahia, contra a vontade única do coronel ou do chefão político local, além da supervisão do governador ACM, da pressão da polícia que tentava nos proibir de fazer comícios (e fazíamos mesmo sem microfones), de juízes e promotores servis ou acovardados. 

Fosse em Jacaraci do poderoso Mozart David; em Itanhém, Mucuri, Urandi, Cocos, Correntina, Santa Rita de Cássia, Pilão Arcado, Campo Alegre de Lurdes ou Curaçá, lá nos finzinhos da Bahia e limites do Espírito Santo, de Minas, de Goiás, do Piauí e de Pernambuco; na Chapada Diamantina em Ipupiara, Gentio do Ouro, Seabra, Abaíra ou Livramento; em Paulo Afonso e em especial em Jandaíra, onde Jacob saiu incólume de uma tentativa de morte (como ocorreu comigo em outra cidade, por motivação judicial-política), ou infelizmente aconteceu com o querido Jota, na cidade da Barra, presidente do MDB local que foi assassinado por pistoleiro a mando do chefe político, e até hoje homenageado no mês de maio, pela Fundfran, do bispado.  

O segundo registro é um preito de reconhecimento e de profundo respeito a dois feirenses ilustres, com os quais tive a honra de conhecer de perto no dia a dia, e contribuir modestamente para suas administrações.

Dois homens inigualáveis em probidade, seriedade, humanismo, amor à causa pública e que deverão ser sempre cultuados no panteão da história feirense. 

FRANCISCO PINTO, o clarão de liberdade de um meteoro que iluminou os céus da Feira e do Brasil, e JOÃO DURVAL, aquele fenômeno da chuva bem vinda que rega a terra para uma colheita dadivosa. Dois feirenses, duas personalidades bem distintas, dois titãs. Na Grécia antiga, seriam semi-deuses.

FRANCISCO PINTO, o guerreiro indômito, o líder inconteste, o feirense que teve o reconhecimento nacional pela sua coragem, enfrentando a violência do regime daqui e d’alhures. O brado de liberdade que ecoou pelo Brasil e abalou as raízes do regime. A voz que marcou uma época e fez ainda mais conhecida Feira de Santana como berço de patriotas autênticos.

O administrador probo, profundamente humano, sempre pensando em melhorar a situação dos mais necessitados. O ouvinte infatigável. Em pouco mais de um ano, demonstrou que seria capaz de realizar a maior administração das que tinham passado por Feira de Santana. Mas, não lhe foi permitido!

O outro, JOÃO DURVAL CARNEIRO também um administrador honestíssimo a toda prova. Legalista ao extremo. Simples, sincero, empreendedor, solidário.  

Com os poderes que teve como prefeito, secretário, governador e senador os exerceu em favor dos baianos, especialmente dos seus conterrâneos. Feira lhe deve tudo.

Água, saneamento, educação, saúde, urbanização e no mais que se possa pensar para uma cidade, João Durval contribuiu deixando marca indelével.

As homenagens que lhe foram e serão prestadas jamais farão justiça ao muito que realizou em benefício de sua terra e de sua gente.

O mínimo que se pode fazer por esses dois ilustres feirenses, lembrando-nos de homenagens prestadas pelos europeus a seus heróis, seria erigir dois portais nas entradas norte e sul da cidade, na BR 116; um deles dedicado a Francisco Pinto com o símbolo do guerreiro destemido, resoluto, amante da liberdade e pronto a por ela se sacrificar. O outro, em homenagem a João Durval, com o símbolo da operosidade e do trabalho infatigável, que transformou a Feira na pujante cidade que é hoje. 

Mas, ambos merecem muito mais reconhecimento e gratidão para agora e sempre, pelo que fizeram pelo Brasil e por Feira de Santana. 

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