400 MIL

Foto: Divulgação

Ao longo da história a humanidade passou por diversas provações. Guerras, diásporas, revoluções e pandemias das mais variadas intensidades. Os problemas surgiam e as soluções eram dadas na medida exata dos conhecimentos acumulados em cada época. Em todos, o componente da ignorância estava sempre presente, mas eram superados e assim a humanidade evoluiu.

 

Nesta quadra da história o mundo foi atingido por uma pandemia que pelo andar da carruagem deve demorar de passar. Vivemos o melhor dos tempos que a civilização humana atingiu. Temos recursos tecnológicos em patamares nunca antes alcançados. A ciência pela primeira vez desenvolveu diversas vacinas em questão de meses. Coisa que quarenta anos atrás seria impossível.

 

No entanto, nos tempos atuais, conhecida como a sociedade da informação, onde a um simples click nos põe a frente ao que se produz melhor e pior do conhecimento humano, ao mesmo tempo vemos grassar uma latente ignorância que mesmo com toda essa rede de acesso a tudo que se produz nas diversas áreas da ciência insiste em perpetuar. A atual crise pandêmica fez eclodir um grupo de pessoas que mesmo com a educação formal, se mostram com uma ignorância arrematada. Quando fazemos um recorte da pandemia para o Brasil, vemos que atingimos o estado da arte da desinformação e do atraso que nos levou ao triste quadro de um dos países com o maior número de mortes pela covid.

 

Atingimos na última semana um número assustador de mortes pelo vírus pandêmico. Foram mais de 400 mil vidas. Nunca na história do Brasil se morreu tanta gente por um único vetor em tão pouco espaço de tempo. E quando nos defrontamos com esta tragédia, não vimos mudança de atitude ou comportamento daqueles que deveriam promover o combate de forma efetiva e constante, que pelo menos minorar o sofrimento ao qual somos submetidos diariamente. Assistimos impávidos correntes de opiniões que tentam minimizar a pandemia com discurso de quem ao que parece vive ainda na idade média. São pessoas que propagam medicamentos que não tem efeito contra o vírus, mas que tem uma plêiade de idiotas que acreditam, fazem comparações de outras doenças que matam até em número maior, mas que analise burra, esquecem que nestes casos temos tratamentos consistentes e as causas são de outra ordem. Mas parece esta gente burra, não sabem diferenciar o que é uma pandemia de outras doenças recorrentes que existem tratamento de fácil acesso.

 

O que mais assusta são os extratos dessa gente ignorante ocupando postos chaves da política e da mídia defenderem posicionamentos que vão de encontro a ciência, ao bom senso e à civilidade. O descaso como foi enfrentado o combate ao vírus na esfera federal já é por demais conhecida. Se propala mentiras a torto e a direito, como cortina de fumaça a incompetência. Entre muitas a cantilena que só besta acredita, diz de que o STF tirou da presidência da república poderes do chefe do executivo em enfrentar a pandemia, quando na verdade apenas determinou que se cumprisse aquilo que estava na constituição federal, ou seja, a competência concorrente, que permite que as ações possam ser tomadas em conjunto ou separadamente pelos entes federativos. Mas essa gente ignóbil não se cansa de reverberar a fala errada do presidente da república. Afinal fanatismo político é a antessala da burrice.

 

No entanto o que mais me preocupa não é o negacionismo latente nas esferas federais de enfrentamento da pandemia, ou ainda, ir na contramão do que preconiza a ciência com a divulgação de medicamentos ou no possível tratamento precoce da doença, fatos estes que pessoas inteligentes e que sabem pelo menos escrever uma frase com sujeito, verbo e predicado sabem que é uma falácia, mas a falta de empatia e o distanciamento em razão do número de mortos. Vive-se, no caso destas lideranças nacionais, num mundo em que a pandemia é meramente uma situação fortuita e de fácil solução.

 

O desprezo por estas vítimas da pandemia nunca é lembrado com pesar por aqueles que têm a obrigação de combater com todos os recursos a covid. Esta falta de empatia tem explicação psicanalítica e não precisa ser nenhum expert no assunto para identificar estes traços patológicos. No entanto, isto seria até desprezível se fosse visto numa pessoa comum, mas por aqueles que exercem cargos públicos, toma uma dimensão muito maior. E situação ainda pior, é a sua naturalização, como se fosse um aspecto de normalidade, por aqueles que os veem promissoras lideranças.

 

O desprezo não se dá por grandes atos, apesar de vez ou outra isto acontecer, mas por pequenas atitudes diárias, como por exemplo participar de jantares e almoços em ambiente fechados e sem seguir as regras básicas de distanciamento e higiênicos adotados mundialmente. Estas atitudes, ainda que pequenas, à primeira vista despretensiosas, mas são causadoras de grandes impactos no inconsciente coletivo. Se a elite política e empresarial não se protege em encontros sociais, o que dirá se importar com as vítimas da covid.

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