O COLAPSO DA VERGONHA

Foto: Divulgação

Estamos chegando ao fim de março de 2021. Sem sombra de dúvidas foi o mês mais sombrio da história do Brasil. Nunca se viu em nossas terras algo semelhante ocasionado por uma doença ou qualquer outro acontecimento que signifique a morte de mais de 300 mil pessoas no espaço de um ano. Lições que serão cobradas pelas gerações futuras.

 

Notícias divulgadas ontem na imprensa, informa que já se discute quem deve ter acesso aos leitos dos hospitais. Se isto não fosse o fundo do poço, seria pior. As razões para este descalabro já são por demais conhecidas. Um governo federal inoperante, incompetente e insensível a dor daqueles que morrem, somados com o negacionismo e defesa de medicamentos que não combatem o covid 19, nos levou a sermos o epicentro da pandemia no mundo. Chegamos ao colapso da vergonha.

 

No espaço de um ano tivemos quatro ministros da saúde. Sendo que o que saiu, representou o estado da arte da incompetência e como não fazer com a saúde pública. Incapaz de promover a entrega de vacinas aos estados certos, vimos uma crescente de casos e mortes sob a complacência de um presidente da república que a todo momento tenta esconder suas responsabilidades apostando em conflitos com os governadores, o judiciário e desacreditando as vacinas, a ponto de desautorizar o seu ministro da saúde a comprar os imunizantes produzidos pelo Instituto Butantan a pretexto de disputa política. Diante disto, se viu acuado pelas evidências dos mortos que se amontoavam nos hospitais, fruto de sua inapetência em combater o vírus e esboçou uma reação. Tímida, tardia e pouco provável que vá adiante.

 

Falo da criação de um comitê de combate a Covid 19. Existe um lugar comum que diz que quando um governante não quer resolver um problema cria um comitê. Pois bem, na última quarta-feira foi realizada uma reunião no palácio do Planalto ao qual compareceram membros dos dois outros poderes, alguns ministros de estado e o próprio presidente da república. Ficou estabelecido que o interlocutor das ações deste comitê será o presidente do senado e assim tentar buscar ações objetivas contra a pandemia.

 

Sinceramente espero que a reunião de tantas autoridades com objetivo comum dê certo. Mas a experiência tem provado que muito provavelmente haverá avanços significativos. Explico por que. Quem deveria reunir e liderar seria o presidente da república. Para isto, é necessário uma mudança na mentalidade do presidente da república. Coisa que sinceramente não acredito. No dia seguinte ao encontro já estava combatendo o isolamento social e para variar mentindo sobre os números de vacinados e distorcendo os fatos, a exemplo da atuação de Angel Merkel, chanceler da Alemanha que recuou a adoção do lockdown, mas por motivos de não ter planejado com antecedência a referida medida. E não porque não deu certo. Lembrando que naquele país o fechamento total se deu por mais de dois meses e houve redução de casos.

 

O ponto dissonante desta reunião realizada na semana passada foi a presença do presidente do STF. Disse que iria indicar um ministro do STJ para compor o comitê. Não vejo com bons olhos a participação do judiciário neste grupo. O que ele poderia contribuir? Assessorar juridicamente as ações do comitê? Do ponto de vista constitucional não é papel do judiciário exercer este tipo de atividade. Fico a pergunta se houver uma ação contra ações deste comitê no STF como ficaria a independência para julgar o caso?

 

O Judiciário pode contribuir, fazendo aquilo para o qual a constituição federal lhe reservou. Julgar com presteza as demandas que envolvem a pandemia. Não é participando de gestão política de enfrentamento a covid, que vai mostrar comprometimento com este sofrimento que a população vem sendo vitimada. Não vejo com bons olhos atuação de magistrados em organismos políticos, por mais nobres que sejam suas intenções. E provoco desafiando se em outros países houve participação tão direta de seus membros das mais altas cortes de justiça em atos de ordem eminentemente política. Que eu saiba não.

 

A pandemia não trouxe somente o colapso da saúde pública no Brasil, mas veio a reboque o colapso da vergonha de quem deveria se envolver como liderança no combate à pandemia. Mas infelizmente temos o pior presidente da república de todos os tempos. Se não fosse a atuação dos governadores que de forma isolada ou se reunindo uns com os outros, o quadro seria muito pior em relação ao vírus. Não vou aqui enumerar as falhas gritantes do poder executivo no enfrentamento da pandemia. Os números diários são a prova cabal de sua incompetência. Mas o que mais me incomoda é encontrar pessoas ditas esclarecidas que defendem o indefensável quando se referem aos atos do presidente da república quando se refere a sua atuação à frente da calamidade diária de mortes da covid.

 

Como disse, torço que o comitê formado para enfrentar a crise sanitária que vivemos encontre os caminhos de acerto contra a pandemia. Mas sou cético. E ela já começa desacreditada, pois, seu mentor não acredita na ciência, pois no seu pronunciamento no dia de sua implementação ainda defende aquele conjunto de remédios que só idiota acredita na sua eficácia. Por sua vez, fica parecendo que somente tomou atitude, não pelo desastre de sua atuação na gestão da saúde, mas para atender uma atitude política de olho nas urnas do ano que vem. Vamos aguardar

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