O INFERNO DE DANTE

Foto: Divulgação

Dante Alighieri é um dos maiores poetas de todos os tempos. Sua obra magistral A Divina Comédia com 100 cantos e 14.233 versos, escritos no século XIV influenciou e influencia a todos que admiram a literatura. Entre seus versos narra o inferno em nove círculos guiados pelo poeta Virgílio. Muito mal comparado, vivemos um inferno de Dante na saúde pública.

 

Os números divulgados ontem, na ordem de 2798 mortos pela covid, assombra até os parâmetros mais pessimistas do quadro pandêmico. Chegamos à pior fase que a doença pode causar. E o que vimos é uma letargia inconcebível por parte do governo federal em enfrentar a pandemia. O que assistimos é o mais completo descaso e indiferença com as vítimas.

 

Ao invés do governo federal promover campanhas para o distanciamento social, uso de máscaras e incentivar a vacinação, vemos um bando de idiotas que ficam propagando uso de medicamentos que a ciência já atestou que não funciona, autoridades federais sem nenhum constrangimento não usar máscara. A médica que foi sondada para ser ministrada saúde Ludhmila Hajjar, e que de forma inteligente e altiva, recusou o convite, disse com todas as letras que o Brasil ainda se discute o uso de cloroquina, ivermectina e outras substância como tratamento preventivo da covid, enquanto que no mundo todo, nem se aventa mais o uso de tais remédios para o vírus pandêmico. O vírus da ignorância não tem vacina.

 

O grau máximo da esculhambação e indiferença ao que assistimos diariamente com as mortes, foi aquela viagem a Israel com uma comitiva de dez pessoas sem nenhuma relação com a ciência, ir atrás de um spray que se diz ser eficiente contra a Covid 19. O governo israelense nem deu bola para este experimento, pois está ainda em uma fase embrionária, e somente fez teste em 30 pessoas. A viagem desta trupe é a prova cabal do descaso com a saúde pública. Ontem o PSOL, partido com representação no Congresso Nacional, solicitou ao ministro das relações exteriores prestação de contas da viagem a Israel em todos os seus detalhes. E é obrigado a prestar, por determinação constitucional. Em não ser atendido, pode configurar crime de responsabilidade. A busca de remédios milagrosos em situação a que vivemos, é típico de autoridades que não sabem o que fazer para contornar o problema sanitário. Coisa de gente ignorante.

 

Por sua vez, o presidente da república não deixa de propalar que lockdown não tem eficácia. Como a mentira é uma regra nas falas do presidente da república, esta última é mais uma de suas mentiras. O lockdown funcionou na Inglaterra, Alemanha, Portugal e Itália. Nestes países os casos caíram de forma acentuada. No Brasil do ponto de vista técnico ainda não tivemos um lockdown nos parâmetros clássicos. Mas, mais cedo ou mais tarde terá que ser adotado, em razão do número de mortes que está crescendo de forma exponencial. A cidade de Araraquara no estado de São Paulo, adotou o lockdown e teve os casos de covid reduzido em mais de 50%. Entendo que nosso país é muito grande e diversificado do ponto de vista econômico, mas ao que parece não existe outra solução, a despeito disto  ficamos empacados com a lerdeza das vacinas distribuídas em doses homeopáticas, fruto de um presidente da república negacionista e pela incompetência de um ministro general ou general ministro que não sabe o que fazer no cargo que ocupa. No dia de ontem foi substituído por um médico. Mas  não nutro mudanças na atuação do governo federal. Pois pelo que se depreende por suas falas, o novo titular da pasta da saúde, ao que parece, foi uma troca de seis por meia dúzia. E um aspecto interessante. O ministro general foi afastado por ser competente. Hilário.

 

Por outro lado, ao invés do presidente da república promover o entendimento entre os governadores e prefeitos e criar um discurso único de combate a pandemia, fica de forma diária e constante criando crises institucionais e transferido a culpa por sua incompetência querendo tirar corpo de sua incompetência em lidar com o grave problema de saúde pública.

 

O novo ministro da saúde disse também de forma clara que o ministério da saúde não tem política pública, mas a do presidente da república. Se for esta a forma definitiva de como será sua gestão, é um filme repetido, com atores ruins e o final conhecido por todos. Não me iludo que o recém-chegado vá abandonar a ideia de defender o kit curandeiro e realizar uma intensa campanha nacional pelo uso da máscara e incentivar o distanciamento social. O presidente da república já demonstrou que não tem equipamento intelectual para adotar o que a ciência manda como protocolo e combate ao vírus da covid, portanto, seu novo ministro da saúde vai seguir a cartilha do atraso e da ignorância. Mas, desejo sorte na sua gestão, mesmo sabendo que nada mudará na política de combate à doença.

 

Assim amigos, termino meu texto lembrando a Divina Comédia do genial Dante. Estamos enfrentando os círculos do inferno na saúde pública. A diferença é que lá na obra de Dante, ele era conduzido pelo poeta Virgílio, ao passo que aqui, não temos nem a sombra deste para que possamos confiar a travessia. E para desespero maior as eleições presidenciais estão longe. 

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