O PIOR NÃO É QUE DIZ, MAS O QUE NÃO DIZ

Foto: Divulgação

Certas autoridades ao ocuparem cargos políticos de alto escalão deveriam ter mais comedimentos ao expressar suas ideias, ou pelo menos, ser assessorado por profissionais que o oriente a expressar de forma clara o seu pensamento. Óbvio que para isto, é preciso que o sujeito tenha predisposição para aceitar conselhos e ter um mínimo de bagagem cultural para não ficar propalando bobagens e sandices sem refletir as consequências de suas palavras.

 

Quando tento inserir o presidente Bolsonaro nestes quesitos que acabei de mencionar, ele não se encaixa em nenhum deles. Primeiro que os assessores que o cercam para ser ruins tem que melhorar muito. Segundo: o presidente não tem bagagem cultural para raciocínios mais complexos que somente podem ser adquiridos se tiver pelo menos lido algo com mais consistência intelectual, e isto definitivamente ele não tem. Falta-lhe conhecimento. Não se exige um intelectual na presidência, já tivemos um. Mas que pelo menos saiba expressar ideias convincentes e que não seja pautado por frases feitas e repetir coisas que não sabe. Este ponto inclusive é retrato perfeito e acabado de quem não tem condições de ocupar o cargo ao qual foi eleito.

 

Agindo como um gabola, o presidente Bolsonaro toda vez que se dirige ao público, em encontro com autoridades sejam nacionais ou internacionais dispara sua metralhadora (aqui no sentido figurado) de sandices e bobagens das mais arrematadas. O histórico é longo e vergonhoso. E olha que já tivemos presidentes anteriores a ele que eram craques nesta conduta. Mas nada se compara com o atual presidente da república. As sandices têm um método. A de desconstruir valores que compõem a institucionalidade, a diplomacia e os primados mínimos de civilidade que formam uma nação.

 

Associados a isto não tem o mínimo pudor em mentir. E o faz sem o menor constrangimento. Cito por exemplo quando disse em março deste ano em Miami que tinha provas que o processo eleitoral que o elegeu foi fraudado e que tinha provas que logo seriam apresentadas. Querem outra: Que na visita oficial aos EUA em 2019 iria visitar uma fábrica que transmite energia elétrica sem fio e que traria a tecnologia para Roraima que se constitui do único estado brasileiro fora do sistema nacional de energia. Ela vem em parte da Venezuela. O conjunto da obra de bobagens ditas sem reflexão tem tido um efeito colateral danoso: o isolamento internacional do Brasil. Sem seu mais novo amigo de infância, Trump, fora do governo, fica difícil defender os ideais do trumpismo.

 

Mas o que traz aqui hoje não são as gabolices presidenciais, mas justamente o seu silêncio sobre determinadas situações e que se espera pelo menos um sinal de civilidade. Já é notório que fatos ocorridos nos últimos anos que impactaram o país, passaram ao largo de suas defecções.

 

Relato de logo a morte de grandes brasileiros que não houve uma só nota de pêsames e quando os dava, era de uma secura e protocolar que era melhor não emitir. Falo de João Gilberto, Ruben Fonseca, Morais Moreira, Bibi Ferreira, Aldir Blac e por aí vai. Nada foi dito. Absolutamente nada. Esta indiferença silenciosa pode ser analisada de dois modos. Uma é a falta de referências. No universo bolsonarista, não se vê a valorização da cultura como instrumento de formação e aperfeiçoamento intelectual. Os padrões a serem seguidos se traduz numa ideia fundamentalista de que a classe artística e intelectual seria um celeiro de comunistas, ou pior ainda, se for contrário à sua corrente de pensamento seria de qualquer forma comunista, portanto, deve ser relegado aos confins do esquecimento. Mas tais mantras repetidos pela súcia que ocupa as redes sociais e da classe de sabichões de almanaque que o assessora, não sabem nem o que é o termo comunismo, até porque nunca leram nada a respeito. Exigir deles qualquer sinal de reverência pelas contribuições que deram as artes e a intelectualidade brasileira seria exigir demais. O deserto árido que ocupa a mente dele e dos que seguem não têm a dimensão destes valores.

 

Outro aspecto que não deixa de ser relevante é a completa falta de empatia. Não se nota um só traço de compaixão pelos brasileiros que se vão pelos mais variados motivos. E não precisa ter lido Freud para perceber de forma nítida as diversas vezes que o presidente aborda, por exemplo, as mortes das pessoas por covid 19, sempre de forma desdenhosa ou de pouco caso. Esta conduta é um traço patológico da personalidade presidencial. Como sempre esteve num ambiente onde os valores da macheza são reinantes e acrescentado a pouca formação cultural mais refinada, resultou na frieza do espírito e da alma. Pode parecer análise psicológica de botequim, mas que não deixa de ser uma constatação com uma certa dose de acerto.

 

O silêncio em não se mostrar indignado com a morte de pessoas em razão de sua cor, no caso ocorrido na última quinta-feira é emblemático, ou ainda minimizar o sofrimento dos que morrem por covid 19 é muito mais indigno e errático do que ficar propalando sandices a torto e a direito. O pior de tudo é emitir opinião muita das vezes preconceituosa de fatos que não entende, mas que é guiado por um pensamento fundamentalista e sem medir as consequências. Por tudo isto diria sem pestanejar: Caiu no descrédito. Vai mudar? Por certo que não. O cordão de puxa-sacos não deixa. 

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