OS MILITARES, O PODER E BOLSONARO

Foto: Divulgação

Existe um livro crucial que deduzo que as altas patentes das forças armadas já leram ou ouviram falar, refiro-me ao “O soldado e o Estado” de Samuel Huntington. O autor, conceituado cientista político americano traça nesta obra as relações entre civis-militares. Ele defende que os militares tenham uma atuação eminente profissional, se deslocando da atuação política devendo se ater essencialmente as especificações técnicas que sua atuação exige. Ainda na esteira desta obra, diz Huntington, que por sinal é intelectual da direita americana-, diz que as forças armadas precisam zelar pelo distanciamento político e não deve interferir nas políticas domésticas.

 

Neste diapasão devemos observar a forma peculiar o papel que às Forças Armadas tem exercido na conjuntura política atual, em especial no governo Bolsonaro. Não precisa ter muita sapiência que a atuação militar, em especial nos países com valores democráticos incipientes principalmente no transcorrer do século XX, os militares tiveram atuação significativa na atuação no jogo dos poderes, inclusive engendrado golpes de estado, e o Brasil não fugiu disto. Tai o golpe de 64 que não me deixa mentir.

 

No entanto, na gestão do atual presidente da república, o que vimos foi uma massificação na ocupação de postos chaves na administração pública federal nunca vista pelos militares. As teorias a respeito são as mais variadas. Desde as de cunho psicológico quando afirma que o fato de ter sido expulso do exército, o presidente Bolsonaro viu na oportunidade de comandante em chefe das forças armadas a oportunidade de si sentir superior, até aquela de que um governo coalhado de militares daria uma respeitabilidade a quem chegou ao posto máximo do país desprovido de capacidade administrativa.

 

Não diria que as duas análises acima estariam erradas. Porém existem variáveis que somam a elas duas. A aproximação dos militares no atual governo é inédita. Temos 6.000 membros das forças armadas encastelado no poder executivo. Nem no auge da ditadura tivemos tantos milicos ocupando cargos do serviço público federal. E afirmo: isto não é bom. Fica parecendo que não existem civis qualificados para ocupar os cargos chaves da república.

 

Mas esta situação tem explicações mais tangíveis. O bolsonarismo busca nos fardados a fachada de excelência que não teria se ficasse cercado de civis, até porque os seus quadros beiram a mediocridade, mas também isto não quer dizer que os militares têm tido uma atuação vistosa. Para exemplificar basta observar a atuação do ministro da saúde, que definir como desastre é elogio.

 

O grande problema nesta imersão total dos militares no governo Bolsonaro está na confusão que irão associar o modelo de governo com as forças armadas. Ou seja, a imagem ruim e extremista de Bolsonaro cai na bainha da espada dos militares. E descolar de tudo isto não será fácil.

 

Além de ocuparem cargos na administração pública, muito dos militares ainda estão na ativa. O fato de não pedir baixa de suas patentes, adotam uma posição perigosa. Pois não perdem a condição de oficialato e comprometem o papel de agente do estado, uma vez que não são agentes do governo. Este excesso de fardados na administração pública não é uma boa coisa nem para o poder executivo, pois, nem todos têm expertise para os cargos, uma vez que seu treinamento tem direcionamento outro, como também as intercorrências políticas, comuns no poder executivo, os levam a ter posicionamentos que não cai bem aos generais.

 

Quando se observa o número exagerado de milico no poder isto passa a população de que existe na administração pública uma plêiade de excelentes servidores. Possa a ter aqui ou ali algum que se sobressaia nas suas funções, mas no conjunto da obra não é o que se está vendo.

 

Por outro lado, a diatribe quase diária do presidente Bolsonaro, com aquelas falas que beiram o extremismo, tem levando aos quartéis um clima de intranquilidade e desconforto. Quando não os leva a uma situação de ridículo. Refiro-me quando o presidente disse que na ausência de saliva, resta a pólvora, referindo-se ao EUA. Sem medir consequências com as suas falas, esta fala trouxe e expôs as forças armadas ao escárnio nacional e também internacional. Tanto que na semana passada numa live, o general Pujol reiterou que as forças armadas devem ficar fora do cenário político. No Planalto tem nove ministros de origem militar. Quando vemos que se tem um general na coordenação política, não é uma boa coisa. Não que ele não tenha preparo para isto. Pode até ter. Mas seu treinamento não foi para isto.

 

Uma coisa é certa. O desastre que tem sido o governo Bolsonaro a conta de seus desacertos vai atingir em cheio as forças armadas. Levará tempo para voltar a ter a credibilidade que sempre tiveram. As lições de Huntington devem ser sempre lembradas. Lugar de soldado é no quartel. Deixa a política para os civis.

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