CANUDOS EM CORDEL - III

Foto: Divulgação

Rumou para o São Francisco
E atravessou em Abaré
Vestia um chambre azul
Não montava, andava a pé.
Atravessando o sertão
Apoiava-se num bastão
Como fazia Moisés.
 
No ano de setenta e quatro
Neste sertão da Bahia
Existia um fazendeiro
De poder na Monarquia
No termo de Monte Santo,
Era inculto esse recanto
Quase ninguém conhecia.
 
O capitão José Hygino
Fez o Tanque da Nação,
Foi antes de ser Cumbe
Quem mandava no sertão,
Deram notícia do mendigo
Peregrinando sem abrigo
E vestido com chambrão.
 
O Chefe alertou sua gente
Para prestar atenção
Mas na tarde apareceu
Um mendigo de azulão
Apresentando cansaço,
Um livro embaixo do braço
E apoiado em um bastão.
 
 
O capitão encarregado
De recrutar voluntário
Procurou interrogá-lo
Nada vendo de contrário.
Abatido da viagem
Não trazia matalotagem
Só um livro, o Breviário.
 
Pediu cômodo, pediu pão.
Na casa da bolandeira
Rejeitou rede e até cama
Só aceitou uma esteira.
Ao verem aquela cena
Todos tiveram pena,
Jejuou na sexta-feira.
 
Pediu licença para ler
Aos seus patrícios do norte
Que no ano de sessenta
Houvera seca bem forte
E de todo o Cariri
Emigrou gente para ali
Para se livrar da morte.
 
Todo o povo apreciava
Ele lendo o Breviário
E fazia alguns sermões
Era grande missionário
Pregando a caridade
“É um apóstolo da verdade
Diziam, este homem foi vigário”.
 
Desapareceu uma manhã
E seguiu sua penitência,
Na vila Rica Bom Jesus
Fez a sua residência,
Construiu sua capela
Do sertão era a mais bela
Que lhe rende reverência.
 
 
José Aras, poeta euclidense.

Compartilhe

Comentários