A FEIRA QUE VIVI - III

Foto: Divulgao

 ​Papel de destaque na sociedade feirense tiveram também os médicos fazendeiros Augusto Freitas e Waldy Pitombo, e o irmão deste, Dival, dentista e notável educador.

​Hoje, ao andar pela cidade tenho encontrado velhos conhecidos, inclusive aquele que na Getúlio ao se esbarrar distraído em mim e ao virar para se desculpar, exclamou assombrado e feliz “Ó companheiro, ainda está vivo?” E eu, sem confirmar o óbvio, respondi agradecido “Obrigado, amigo, por sua alegria...”

​Não sou e não desejo ser historiador, tampouco pesquisador. Não pretendo sê-los (lembrando Jânio, o ex-presidente), embora tenham por essas pessoas reconhecimento pelo importante papel que exercem na educação do povo. A Feira tem doutores e leigos que já se ocuparam e se ocupam dessas funções, como disse antes, complementando agora com o incansável Joaquim Gouveia, além do jornalista Adilson Simas cuja iniciação no jornalismo acompanhei.

​Valho-me fundamentalmente da memória, com as falhas naturais, movido pelo isolamento imposto pelo Corona Vírus, que já visitou dois filhos e uma neta, felizmente em breve hospedagem, expulso de pronto por outro filho, profissional da área, com medicação objeto de controvérsias...

​ ​Voltemos às reminiscências. Em 1948, o município era dividido em 10 distritos: Sede, Bomfim de Feira, Humildes,  Pacatu (Sta. Bárbara), Tanquinho, Tiquaruçu (São Vicente),  Maria Quitéria, Jaguara, Anguera e Ipuaçu.

​Os mais influentes “coronéis” eram, pela ordem dos feudos acima nominados, Teódulo Carvalho, Genésio Moreira, Antônio Cunha, Abílio Santa Fé e José Gregório (PSD), Godofredo Leite, Juvêncio Braga, Artur Vieira e João Carneiro (UDN). O prefeito, Agnaldo Boaventura (PTB), e na Câmara eram treze edis, com destaque para Áureo Filho, Augusto Matias, Abilio Santa Fé e Edelvito Campelo. Seu deputado estadual, Carlos Valadares e juiz, Alibert Batista.

​Sua política sofria grande influência dos líderes distritais, dês que a população rural era o dobro daquela que residia na cidade.
​As reuniões políticas eram realizadas nas residências dos chefes de partidos. Compareci a algumas em casa do vereador Leopoldo Cabral (PTB), com a presença do deputado Joel Presídio. Fizeram-me secretário de sua ala jovem. Claudemiro Suzart, getulista apaixonado, reiterado candidato à vereança e dono da popular Farmácia Campos, era conhecido por seus discursos folclóricos. Revoltado por andarem espalhando que ele não era feirense, Claudemiro, em comício, dizendo que nascera em Feira, bem ali na Rua do Meio, perguntou do palanque o que ele era então? E entre a multidão alguém gritou, encerrando o discurso do orador: “filho de puta”. A Rua do Meio, atual Sales Barbosa, era a artéria do meretrício...

​A Prefeitura abrigava no térreo o gabinete do Prefeito e secretarias, e no andar superior Justiça/salão do júri/Câmara de Vereadores. O prédio da Cadeia Pública hoje abriga a Casa da Cidadania.

​A cidade contava com o Feira Tênis Clube como centro social da elite. Altaneira, a Euterpe Feirense conseguiu sobrevier às centenárias Vitória e 25 de março como clube da classe média, devido ao seu abnegado patrocinador Hermínio Santos. As outras, embora ainda vivas, são mantidas por alguns idealistas, continuando a 25 de março até pouco tempo (?) a receber aqueles que não podem passar sem seu pocker, dama, dominó ou xadrez.  

​Tais sociedades conhecidas como filarmônicas, tiveram importante papel na vida social, cultura e até beneficente de Feira de Santana, alegrando, educando e ajudando seus sócios como órgãos assistenciais.  

​Participavam de desfiles, procissões, tocatas em fins de semana e feriados nos belos coretos das praças da Matriz, Bernardino Bahia, Fróes da Mota e 2 de julho, que para elas eram construídos; abrilhantavam os comícios; tocavam em datas comemorativas; na recepção de visitantes ilustres; em bailes sociais e festas residenciais, além de manterem escola para a formação de músicos e para a alfabetização de jovens.

​Vizinho, funcionava o prédio do Monte Pio dos Artistas, assistindo aos artesãos nas doenças ou quando morriam, mantendo uma tradição que vinha das corporações da Idade Média na Itália, e que, passando pela Inglaterra e Alemanha, deu origem, a partir de 32 e de Lindolfo Collor, aos IAPs, hoje INSS.​

​O Cine Íris substituíra, anos antes, o Cine Teatro Santana localizado em frente ao Beco do Mocó de ricas lembranças, cujos filmes do cinema mudo encantara os mais velhos, fosse com Chaplin ou Greta Garbo, fosse com os cowboys John Wayne e Roy Rogers; ou as trapalhadas da dupla Stan e Laurel (o Gordo e o Magro). O velho cinema teve o mérito de projetar a dramaturgia na sociedade, de cujos grupos participou o saudoso e persistente delegado Gilberto Costa.  

​Em setembro de 1948, Pedro Matos, sócio de meu pai em caieiras no município de Araci, inaugurou sua Rádio Sociedade, com 250w de potência, quando estávamos cansados de ouvir os pernambucanos (nossos desafetos do então Campeonato Brasileiro de futebol e da Confederação do Equador), invadirem nossas casas com a sua Rádio Jornal do Comércio de 100kWa de potência e seu presunçoso bordão, Pernambuco falando para o mundo.



Por: Pedro Cleto                                                                                                                                                             [email protected]

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