SOMENTE NO BRASIL

Foto: Divulgação

Dois episódios recentes divulgados na imprensa nos dois últimos dias trazem em suas estórias o aspecto peculiar que vivenciamos atualmente no Brasil. O desarranjo político provocado por um presidente da república que pouco dá importância a pior crise sanitária vivenciada em nosso país somado com práticas de certas autoridades judiciárias nos leva a crer que chegamos definitivamente no fundo do poço das iniquidades que não cansam de acontecer.

 

Por ordem cronológica dos fatos começo pelo que li ontem na imprensa e na coluna do genial Reinaldo Azevedo e expôs algo estarrecedor vindo lá das bandas de Curitiba. Trata-se da força tarefa da Lava Jato em comunhão com a juíza que substitui o Moro na 13ª Vara Federal da capital paranaense. Detalho agora para os amigos.

 

A juíza Gabriela Hardt, aquela mesmo que numa canetada decidiu que o dinheiro pago pela Petrobrás num acordo com a justiça americana, uma bagatela de 1,2 bilhões de reais, fosse usado para criar uma fundação de combate a corrupção. Por sorte a própria PGR e o STF derrubaram a ideia estapafúrdia e ilegal. Mas eles não sossegam. Resolveram que os depósitos judiciais dos valores recuperados dos processos criminais da dita força tarefa, fossem doados ao governo federal para ajudar no combate a pandemia. O valor inicial seria de 21 milhões e poderia chegar a um pouco mais de 500 milhões de reais. A quantia foi apresentada e oferecida ao ministro chefe da casa civil que não se manifestou até o momento sobre gesto tão bondoso.

 

Primeiramente gostaria de saber da magistrada qual a lei se baseia sua ação. Afinal dinheiro custodiado em juízo não pertence nem ao juiz, ao cartório e muito menos da promotoria. Portanto não pode dispor de valores depositados em juízo seja destinado para este tipo de fanfarronice. Não é crível que uma autoridade judiciária não saiba que tal gesto não pode ser adotado. Esse voluntarismo despótico, despótico no sentido de forma de governo, diga-se de passagem, somente demonstra a que ponto chegamos como se comporta os valentes que compõe os trabalhos da Lava Jato.

 

A juíza Gabriela a mesma que cortou copiou a sentença do seu antecessor, a ponto de fazer referência no processo da força tarefa de um apartamento, quando na verdade se tratava de um sítio, prova que nem leu o que copia, não pode se arvorar como benfeitora dispondo de valores que compete a ela exclusivamente a guarda. De qualquer forma se me apresentarem o amparo legal que a fez tomar tão estapafúrdia decisão me redimo das críticas. Se não, compete o CNJ tomar uma posição dura e pôr as coisas no seu devido lugar.

 

Outro fato que foi notícia, diz respeito ao diagnóstico de Covid 19 no presidente Bolsonaro. Para variar ao anunciar que estava contaminado, usou a sua fala para mais uma vez negar a gravidade do vírus e propalar que está bem em razão do uso da cloroquina. Não precisa dizer que a imprensa internacional noticiou o fato com a ironia de sempre. Os principais noticiosos do mundo, entre eles o New York Times, The Guardian, Washington Post, Correio da La Sierra, Financial Times e por aí vai, não pouparam o discurso negacionista do presidente, mostrando o ridículo internacional que nosso país tem passado pelas atitudes e falas do mandatário do Brasil. O curioso disto tudo, são as afirmações presidenciais sem nenhum embasamento científico. Prova disto é dizer que o distanciamento social não evita a contaminação acelerada e que os jovens são os que menos são afetados pela doença. Tudo balela de quem não sabe o que fala.

 

O fato de fazer uso da cloroquina como medida terapêutica é um completo desserviço à saúde pública. Antes que que me detonem, afirmo que a FDA, órgão de regulação de medicamentos e comida dos EUA, o mais respeitado e exigente do mundo, vetou o uso da cloroquina como medicamento de combate ao vírus pandêmico. Nenhum país sério no mundo faz uso desta substancia como tábua de salvação ao covid. Todos sabemos que a cultura de Bolsonaro é abaixo de zero, mas ele vive cercado de um bando de sabichões de fancaria que defende tais absurdos sem amparo científico e o presidente os ouve e aceita e ainda propala como verdades absolutas.

 

Como se não bastasse o fato de negar a gravidade do problema pandêmico, há uma velada falta de empatia com as dores dos mais de 66 mil mortos provocados pelo vírus, por parte do presidente da república. Somos o único país do mundo que não temos um ministro da saúde no comando de combate à doença. O que ocupa a pasta ainda é interino, além de ser de uma incompetência ímpar. Cercou o ministério de militares que ocuparam os cargos dos médicos e política nacional na área inexiste.

 

Estes fatos aqui narrados mostram como estamos vivendo um momento de penúria da qualidade das autoridades públicas brasileiras. São de um despreparo escandaloso. E as vezes me pergunto como eles chegaram tão longe. Vemos uma magistrada que desconhece o básico de suas funções ao resolver doar dinheiro que está sob sua custódia apenas para demonstrar um voluntarismo jeca e ilegal. Por outro lado, temos um presidente da república que desconhece os protocolos mínimos da ciência, da cultura, da empatia, da civilidade que se espera de um ocupante do mais alto cargo público de um país. Ouço por aí que vivemos tempos tristes, mas acho que o pior são as pessoas que nos lideram, deslocadas do tempo e de suas atribuições.

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