UMA PAUSA PRO INÉDITO

“Moço, você tem um perfume para nos dar?” pergunta uma mulher, sob o telhado de uma antiga faculdade em frente ao Padre Ovídio, abraçada com seu marido. Ambos, assim como eu, fugindo da garoa ameaçando engrossar das oito-e-pouca.

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O dia começou como qualquer outro dos últimos três: cinza, chuviscado, perfeito pra tirar ótimas sonecas, que, assim como nos últimos três, também não tive. Levanto, como de costume, tomo meu banho, visto minha roupa, tomo café, e saio como de praxe, em cima da hora. Correndo contra o tempo, quer algo mais cotidiano que isso? Andando, quase correndo, passo pelas ruas e avenidas até o caminho do estágio. Numa delas, quase tão comuns quanto o sono em dias cinza, uma pergunta me flagra, e eu continuo atrasado. Dessa vez até mais. “Moço, você tem um perfume para nos dar?” pergunta uma mulher, sob o telhado de uma antiga faculdade em frente ao Padre Ovídio, abraçada com seu marido. Ambos, assim como eu, fugindo da garoa ameaçando engrossar das oito-e-pouca. Um pedido diferente. Afinal, nunca uma pessoa em situação de rua tinha pedido um perfume. Dinheiro tá na lista. Comida tá na lista. Mas perfume? Primeira vez. E o inédito merece uma pausa. Respondo que não tinha, pergunto se uma maçã e um pacote de biscoito ajudam. Eles respondem que sim, me sorriem, e agradecem. Mas, e o perfume? Não podia seguir meu caminho fingindo que nada tinha acontecido – como também não costumo fazer. Não aguento de dúvida, e, com a mesma – eu acho – simpatia deles, pergunto. Ele responde: “vamos ter um bebê. Eu quero estar cheiroso pra pegar ele no colo”. Seguro as lágrimas, reviro minha mochila de novo, e, mais uma vez, não tenho perfume. O casal me explica a situação: o pouco que eles tinham lhes foi tomado. Desde os doces que vendiam às roupas que receberam de doação. Até os documentos, levaram. Seguem me contando: “o bebê pode nascer sem certidão, pode não ter um nome. Eu não quero meu filho sem nome. Sem teto. O pouco dinheiro que juntamos para um aluguelzinho foi levado junto.”. Mais uma vez, as lágrimas ficam presas. Eu, sem saber o que fazer e sem mais nada para oferecer, aperto as mãos deles, desejo que tudo melhore, e dou uns trocados que eu achei perdidos pela bagunça da minha mochila. O atraso para o estágio passa a ser mínimo, o inédito mereceu uma pausa. Aliás, o inédito está por vir. Melhor dizendo: está para nascer. Ao sair, me dei conta que esqueci o de perguntar o nome do casal, e do pequeno que está chegando. Espero que você, que pausou seja lá o que for, para ler esse texto, caso passe na Avenida Senhor Passos, próximo ao Colégio Padre Ovídio, dê um pouquinho de atenção, comida, e ajuda a eles. O que pude oferecer, no momento, era pouco. Espero ajudar por meio desse texto, com você fazendo o que não pude fazer naquela manhã cinzenta, com um chuvisco ameaçando engrossar. Por sinal, o dia ficou mais bonito depois disso. E caso você passe por lá, não se esqueça de ser humilde, de dar atenção ao inédito, de perguntar seus nomes, e do perfume.

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