HD QUEIMADO

Não sei quando surgiram os backups, só sei o seu provável nome original: museu - do brasileirês, “esquecidos e abandonados”.

Foto: Francisco Proner/Farpa/VICE

Não sou muito fotogênico, mas adoro fotos. Não as minhas. Gravar um momento é algo legal, principalmente, para recordar depois. “Eu, PV e Bruno subimos na fonte da praça principal de Guarajuba, enquanto comíamos um cachorro-quente de Gaguinho” – “Mentira” – “Sério. Tá aqui a foto, olha”. Além de memórias, são evidências. Provas. Fatos. Passa uma certeza credibilidade, mesmo sendo uma bizarrice, é uma bizarrice real.

Nossas fotos, assim como muitas histórias, sempre parecem mais interessantes quando alguém explica. O narrador dá toda a carga dramática, cita cada memória do dia, do momento, e descreve com detalhes, reais ou hiperbólicos, o que levou àquilo. Então, o ser humano, com sua memória não-elefantesca, criou recursos para lembrar-se das suas histórias, desde a época da pré-história – que ironia. Das pinturas rupestres às selfies pro Instagram (que viram #tbt), são lembranças passadas. Não “passadas” de passado, “passadas” de transmitidas, ok?

Já disse algumas vezes que minha memória é péssima, confio mais na do meu notebook, portanto, guardo minhas lembranças na memória dele. É fácil, prático e baratinho, só demanda um pouquinho de tempo. Posso não lembrar de tudo que já deixei nele, e fico tranquilo com isso: ele vai lembrar. Quando eu quiser uma memória dos meus 12 anos, é só conferir os backups, ou perguntar a dona Luana. Meus 20 anos de vida guardam histórias, boas e ruins, que gostei de registrar, lembrar que vivi, contar e mostrar.

Não sei quando surgiram os backups, só sei o seu provável nome original: museu – do brasileirês, “esquecidos e abandonados”. Os backups da humanidade não estão todos num lugar só, estão espalhados mundo a fora, entre Louvres e MASPs por aí. Uma pena o mundo ter perdido mais 20 milhões de recordações – traduzindo: uma caralhada de gigas – em questão de horas. Existem histórias que serão apenas contadas. Histórias que passaram a serem mais histórias pela falta de provas, porque pessoas podem ir de encontro aos seus fatos (teoricamente, considerados boatos, sem evidência).

A Luzia, os Ticunas, Carajás, Iorubás e Cia. ilimitada, antes parte dos livros de histórias, hoje, só em livros de histórias. O ser humano perdeu parte de sua humanidade, em minutos. Como você, leitor atualizado, já deve saber, a tragédia do Museu Nacional foi premeditada. Já era anunciada desde Maio, ou até antes. Em 2014, os “gastos” com o Museu foram cortados. A manutenção do MN era de 44 mil reais por mês, convertendo para o Real: quase um deputado. Sim, existem deputados que chegam a ganhar mais do que o Museu Nacional, vulgo, o ex-maior acervo de história natural e antropologia da América Latina. Pasme.

Ficaram as fotos do Museu – não as minhas –, espalhadas por backups em notebooks, iPhones e Androids por aí. Busco visitar as memórias, contadas por outros, em artigos e textos. O Museu Nacional foi embora em fumaça, e sobraram apenas suas cinzas. Momentos gravados em pedra e barro, ocupam exclusivamente telas. Digitais, não pintadas.

Desculpa, leitor. Se você veio em busca de risos de cantinho de boca, e voltou com lágrimas no canto dos olhos. Não tive piadas, “sacadinhas” ou qualquer outra coisa para escrever nesta crônica. Um dos HDs da humanidade queimou – literalmente. Fica um recado: cuide bem de suas lembranças. Um dia elas podem virar exclusivamente um #tbt, e por mais bizarro que seja a notícia, 20 milhões de partes da nossa história foram embora por causa de um disco corrompido: o governo.


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