O PROBLEMA NÃO É A PESCA

Uma coladinha não faz mal a ninguém. A não ser que esteja na sua mão esquerda, com as palavras: “Lula”, “pesquisas” e “armas”, e seu discurso seja carregado apenas da última delas – não menospreze o trocadilho.

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            Lembro como se fosse ontem da minha época de colégio. Não era lá o melhor aluno, mas não fazia feio, não. Tirava minhas notinhas 7, 6, às vezes, um 9, outras, bambeava. Lembro como se fosse ontem que, mesmo com meus mangues e medo de recuperação, eu tinha um “medo” maior: o de pescar. Não que fosse o super ético e moralista, mas porque tinha outro medo: o de ser flagrado no meu ato desesperado.

Eu sempre soube que pesca não era minha praia. Fui, e sou, pé atrás com essa prática, embora ilegal, eficaz. Existiam as clássicas: olhadinha no gabarito de quem está ao lado, colinha anotada num papel menor e pesquisa no celular. Alguns professores contavam de esquemas arquitetados por verdadeiros gênios: gabarito anotado num biscoito maisena (o professor viu? Come), fórmulas dentro do pacote de salgadinho e anotações na sola do sapato. Convenhamos: pela complexidade desses esquemas, estudar pouparia mais tempo.

 Tive grandes amigos que pescavam e se davam bem. Algumas pessoas dizem que são as pequenas corrupções que refletem nos “Lavajatos” e “Mensalões” que circundam a sociedade brasileira. Aposto que muitos replicam esse discurso enquanto estão usando o celular e dirigindo, ou cortando uma fila. Pescar não é mau-caratismo, é desespero. Uma pessoa considera pescar quando não quer perder.

Uma coladinha não faz mal a ninguém. A não ser que esteja na sua mão esquerda, com as palavras: “Lula”, “pesquisas” e “armas”, e seu discurso seja carregado apenas da última delas – não menospreze o trocadilho. Uma pesca para replicar discurso de ódio, só mostra o desespero do candidato Você Sabe Quem de tentar bater, no momento que apanha. Intelectualmente falando.

Tal candidato, que, infelizmente, lidera algumas pesquisas – colei –, demonstra o medo e a fragilidade de seu discurso e propostas. Em momentos, insiste em falar mal do Lula – colei de novo –, e esquece-se de falar seus planos para a economia (o ministro tá lá pra isso), saúde, educação, ou qualquer coisa que ele precise falar. São poucas coisas que me lembro de ter escutado Você Sabe Quem falar, a maioria foram racismos, xenofobias, machismos, homofobias, ou, sei lá, passagens aleatórias da Bíblia. Existe um risco de, por algum acaso, encontrá-lo num restaurante, e vê-lo pedir ao Paulo Guedes para conferir o troco, proferindo discursos bélicos e bíblicos. Detalhe: este cidadão, infelizmente, presidenciável, ainda defende a segurança da forma mais “fácil”, legalizando armas. Pensar em armas para um país com um sistema educacional precário, é pensar em chacinas, assassinatos, homicídios e suicídios. Nem preciso lembrar o quanto ele gosta de tortura, né?

Lembro lá da minha época de colégio, onde meu medo era pescar e ser pego. Bate saudade. Hoje, meu medo é tal candidato ser eleito, e deixar o país da forma que ele diz que quer. Ou melhor, não diz. Meu medo estudantil passa a ser bobo. O risco de ser flagrado e tomar um zero parece pífio. Peço aos professores, para que perdoem meus colegas pelas pescas. Peço ao Brasil, que perdoe o cidadão de bem pela pesca. Pescar não é o problema. Pescar não é mau-caratismo, é desespero. Desespero esse, que se estenderá caso o Você Sabe Quem seja eleito.

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