DESABAFO DE UM NORDESTINO IRÔNICO

Pense comigo: se um nordestino fala que todo nordestino é burro, ele tá na lista, correto? Se ele tá na lista, por tabela, a burrice o infecta também, né?

(se alguém souber quem fez essa arte, me avisa, quero creditar aqui)

Na minha lista de coisas favoritas, estão: o som do Maglore, as músicas do Caetano, filmes do Scorsese, fast-foods, e ironia. Ah, ironia, como eu te amo. Esse recurso linguístico, junto com o improviso, é uma das melhores formas de fazer humor. Nada melhor do que aquela piadinha com uma pitada de acidez e crítica. Quando sai boa, dá vontade de fazer um outdoor com a frase.

Embora digam que nem todo mundo entende ironia, todo mundo sabe usar, só não sabe que sabe – irônico, não? –. Ela caminha ao lado do sarcasmo, outra coisa divina para o humor. Um dos personagens que mais me recordo ao falar de sarcasmo é o Chandler, de Friends.

Friends que talvez seja uma das maiores referências humorísticas de todos os tempos, junto com Monty Python. E deixo-as um pouquinho de lado, para comparar com uma piada regional: nada é tão engraçado quanto a ironia de nordestinos falando mal de nordestinos – isso sim é cômico.

Parece que o senso de localização some na hora de criticar o voto alheio, encher a boca – e o WhatsApp – de comentários xenófobos, mesmo fazendo parte desse grupo. É cômico, de verdade. Como se um cachorro de rua reclamasse porque outro cachorro urinou próximo ao lixo. Por sinal, desculpem-me, cachorros, por compará-los com os humanos: vocês são muito melhores que a gente.

Se eu fosse teórico, estudaria esse fenômeno, apelidado de: “crise do nordestino pseudosulista”. Não passa de uma crise de identidade, ou uma, sei lá, falta de reflexão mesmo. Pense comigo: se um nordestino fala que todo nordestino é burro, ele tá na lista, correto? Se ele tá na lista, por tabela, a burrice o infecta também, né? (que burro).

Sou contra a xenofobia, mas sou ainda mais contra o desdém à sua origem. Embora eu seja louco por São Paulo, nada se compara aos encantos da nossa terra. Em Salvador, Aracaju, Natal, Maceió, Fortaleza, e outras capitais maravilhosas que a gente encontra por aqui – e eu nem vou entrar no mérito dos interiores. Não basta sofrermos com a seca, a fome, o abandono, o descaso, ainda temos que sofrer com a descriminação.

Parte o coração ver nosso nordeste divido. Infelizmente, é minoria o número de pessoas que reconhecem a nossa importância, e a nossa importação de gênios, em todas as áreas. Seja o Gil, o Nizan, o Castro Alves, a Maria Quitéria, o Caymmi, todos são referências para o Brasil. E todos tem um pezinho – ou melhor, um corpo inteiro – vindo do Nordeste.

Resta saber o que esses “pseudonordestinos” fizeram de importante pro Brasil, para ter moral de criticar nosso povo (pelo que entendi, votaram num neonazista e se acham mais inteligentes por isso). Talvez, com um pouquinho de leitura, perceberiam quem está sendo “burro” na situação. Entender um pouquinho do que é ironia, e fazer do jeito certo. Usar as críticas de forma inteligente, e não perder tempo falando bobagem.

Deixo aqui um desabafo cheio de sarcasmo, acidez e reflexão às ironias do destino – que são causadas por humanos. Todo mundo sabe usar a ironia, só não sabe que sabe. Todo mundo faz graça, só não entende o motivo da piada. Justamente por ser engraçado pra poucos. Nada me deixa tão puto quanto alguém insultando alguém do mesmo lugar, da mesma situação. Espero que tenha ficado claro o suficiente. Explicar o inexplicável também tá na minha lista de coisas favoritas (junto com a ironia).


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